Quando se fala em energia elétrica no Brasil, um fator costuma receber menos atenção do que deveria: o clima.
Embora o país possua uma matriz diversificada, com participação de fontes eólicas, solares, térmicas e de biomassa, a geração hidrelétrica continua sendo a principal fonte de energia do sistema elétrico nacional.
Por isso, fenômenos climáticos capazes de alterar os regimes de chuva podem influenciar diretamente os custos de geração de energia e, consequentemente, os preços pagos pelos consumidores.
Entre esses fenômenos, um dos mais conhecidos é o El Niño.
O que é o El Niño?
O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial.
Esse aquecimento altera padrões atmosféricos em diversas regiões do planeta, incluindo a América do Sul.
No Brasil, seus efeitos variam conforme a região, mas normalmente estão associados a:
- Maior volume de chuvas na Região Sul;
- Redução das chuvas em partes das regiões Norte e Nordeste;
- Alterações nos padrões de precipitação do Centro-Oeste e Sudeste.
Essas mudanças podem impactar diretamente a disponibilidade de água nos reservatórios das usinas hidrelétricas.
Por que a chuva influencia o preço da energia?
A resposta está na matriz elétrica brasileira.
Grande parte da energia consumida no país é gerada por usinas hidrelétricas.
Quando os reservatórios estão cheios, o sistema consegue gerar energia com menor custo operacional.
Quando os reservatórios apresentam níveis reduzidos, o Operador Nacional do Sistema (ONS) precisa acionar fontes complementares, principalmente usinas termelétricas.
E é justamente aí que surge o impacto econômico.
Em geral, a geração térmica possui custos significativamente superiores aos da geração hidrelétrica.
Quanto maior a necessidade de despacho térmico, maior tende a ser o custo de operação do sistema elétrico.
Por que os reservatórios são tão importantes?
Os reservatórios das usinas hidrelétricas funcionam, de certa forma, como grandes baterias naturais do sistema elétrico brasileiro.
Quando os níveis dos reservatórios estão elevados, existe maior disponibilidade de água para geração de energia. Isso aumenta a segurança do sistema e reduz a necessidade de utilização de fontes mais caras, como as usinas termelétricas.
Por outro lado, quando os reservatórios apresentam níveis baixos, o sistema perde parte dessa capacidade de armazenamento. Para garantir o abastecimento, torna-se necessário acionar outras fontes de geração, muitas vezes com custos significativamente superiores.
É por isso que o mercado acompanha tão de perto os níveis dos reservatórios e as perspectivas hidrológicas. Em um país cuja matriz elétrica ainda é fortemente baseada em geração hidrelétrica, a disponibilidade de água continua sendo um dos principais fatores na formação dos preços da energia.
Toda chuva ajuda o sistema elétrico?
Não necessariamente.
Um dos equívocos mais comuns é imaginar que qualquer aumento de chuva no Brasil automaticamente reduz os preços da energia.
Na prática, o fator mais importante é onde essa chuva ocorre.
Os reservatórios mais relevantes para o abastecimento nacional estão concentrados principalmente nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, onde se localiza boa parte da capacidade de armazenamento do Sistema Interligado Nacional (SIN).
Por isso, chuvas abundantes em regiões com menor impacto sobre esses reservatórios podem não produzir os mesmos efeitos sobre os preços da energia.
Em outras palavras, não basta chover mais. É importante que a chuva ocorra nas bacias hidrográficas que alimentam os principais reservatórios do país.
Como o El Niño pode afetar os preços da energia?
O impacto do El Niño depende da intensidade do fenômeno e, principalmente, da distribuição das chuvas durante o período.
Historicamente, o El Niño costuma estar associado ao aumento das chuvas na Região Sul e à redução das precipitações em partes das regiões Norte e Nordeste.
No entanto, para o setor elétrico brasileiro, o fator mais importante nem sempre é o comportamento das chuvas nessas regiões.
Grande parte da capacidade de armazenamento de água do Sistema Interligado Nacional está concentrada nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, onde se localizam alguns dos principais reservatórios e usinas hidrelétricas do país.
Por isso, do ponto de vista da formação dos preços da energia, o mercado acompanha com especial atenção os efeitos do El Niño sobre as bacias hidrográficas dessas regiões.
Quando o fenômeno contribui para melhorar as condições hidrológicas dos reservatórios do Sudeste e Centro-Oeste, a tendência é de redução da necessidade de despacho térmico e, consequentemente, de menores custos para o sistema.
Por outro lado, quando as chuvas ficam abaixo do esperado nessas regiões estratégicas, o cenário pode pressionar os custos de geração e aumentar a probabilidade de acionamento de bandeiras tarifárias mais elevadas.
Por esse motivo, agentes do setor acompanham constantemente indicadores como:
- Níveis dos reservatórios;
- Previsões meteorológicas;
- Vazões dos rios;
- Perspectivas hidrológicas;
- Necessidade de despacho térmico.
Esses fatores influenciam diretamente as expectativas de custo da energia para os meses seguintes.
O que são as bandeiras tarifárias?
As bandeiras tarifárias foram criadas para sinalizar aos consumidores as condições de geração de energia do país.
Quando o sistema opera em condições favoráveis, aplica-se a bandeira verde.
Quando os custos de geração aumentam, podem ser acionadas as bandeiras amarela ou vermelha.
Na prática, as bandeiras representam um mecanismo de repasse dos custos adicionais de geração para os consumidores atendidos no mercado regulado.
Por isso, períodos de hidrologia desfavorável costumam aumentar a probabilidade de acionamento de bandeiras tarifárias mais elevadas.
Qual a diferença para consumidores do Mercado Livre?
Uma das principais vantagens do Mercado Livre de Energia é justamente a proteção contra as bandeiras tarifárias.
Consumidores que migraram para o Mercado Livre não estão sujeitos às bandeiras tarifárias aplicadas aos consumidores do mercado regulado.
Além disso, os contratos permitem a definição prévia do preço da energia para períodos mais longos, proporcionando maior previsibilidade financeira.
Na prática, isso significa que, em momentos de hidrologia desfavorável e acionamento de bandeiras tarifárias mais elevadas, a diferença de custo entre o Mercado Livre e o mercado regulado tende a se tornar ainda mais evidente.
Enquanto consumidores do mercado regulado sofrem diretamente os impactos das bandeiras tarifárias, consumidores do Mercado Livre permanecem com o preço da energia previamente contratado, protegendo-se dessa volatilidade.
Isso não significa que fatores climáticos deixem de influenciar o setor elétrico ou as estratégias de contratação de energia. Pelo contrário. O comportamento dos reservatórios, as perspectivas hidrológicas e os cenários climáticos continuam sendo acompanhados de perto pelos agentes do mercado, pois influenciam decisões relacionadas à contratação, renovação e gestão de energia.
Por esse motivo, empresas que já estão no Mercado Livre costumam acompanhar indicadores hidrológicos e tendências de preços para identificar oportunidades de contratação, renovação ou extensão de contratos em momentos mais favoráveis.
O clima continuará influenciando o setor elétrico?
Sem dúvida.
Mesmo com o crescimento da geração solar, eólica, biomassa e sistemas de armazenamento de energia, a hidrologia continuará desempenhando um papel fundamental no sistema elétrico brasileiro por muitos anos.
Por isso, fenômenos como El Niño e La Niña seguirão sendo acompanhados de perto por agentes do setor, comercializadoras, geradores e consumidores.
Entender essa relação ajuda empresas a compreender melhor como os preços da energia são formados e por que fatores climáticos podem influenciar diretamente seus custos operacionais.
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